Nessa madrugada antes mesmo de você acordar
passei pelo teu quarto e fiquei ao seu lado,
invisível, mas te vendo dormir.
Queria ter entrado nos teus sonhos
e nem sei se consegui.
Você parecia tão calma, cheia de paz de olhos fechados,
eu pude ver seu coração batendo dentro do seu peito,
ele tem algumas cicatrizes que de vez
em quando sangram, não?
Eu poderia ter descoberto teus segredos
nessa madrugada, mas os deixei no lugar onde eles pertencem.
Quem sabe um dia você me conta com sua própria voz.
No vaso da sala coloquei algumas flores,
elas são do meu jardim, mas só você conseguirá vê-las,
mais ninguém.
Nessa madrugada eu ouvi teu chamado,
então peguei minhas asas que estavam
guardadas no armário e voei em tua direção,
e pra minha sorte você deixou a janela aberta pra eu entrar.
Acredito em você, eu confio em você,
eu não diria isso se não sentisse,
nessa manhã quando você acordar vai se sentir estranha,
como se tivesse algo diferente...
saiba que eu deixei um presente,
quando a luz estiver se afastando de ti,
não esmoreça, vá em direção de um lugar calmo,
ao ar livre e olhe para o céu,
o ser humano só se sente o divino quando olha para o céu,
porque somos seres siderais,
feitos da poeira das estrelas
e é para elas que vamos retornar um dia.
Nessa madrugada enquanto voava de volta
ao meu quarto, para a minha janela,
senti que o tempo está passando cada vez mais rápido
e talvez já nem dê mais tempo,
talvez já não dê mais tempo...
por isso enquanto as minhas asas
estiverem boas pra voar eu irei te visitar,
deixa a janela aberta, meu espírito nasceu pra voar,
enquanto meu corpo dorme,
repousa em minha calma,
eu expando minha alma
e isso acontece desde tempos imemoráveis...

E é quando percorro de noite ruas vazias,
iluminadas pela luz quente vertida
de portas escancaradas que,
lá de dentro, me chega
o fervilhar a saudade da tua ausência.
Risos estridentes abafam-se
no murmurinho de muitas conversas,
e, eu ali fico, no sossego da minha sombra.
Contemplo por instantes
os gestos lânguidos e então,
voltando a face,
continuo por esse caminho
de silêncio que me leva até ti
em amor e pensamento...
E aqui estou eu... só,
não fossem as tuas palavras,
vez em quando,
como alertas que me afirmam
realmente a tua existencia,
que me rasgam como
relâmpago em noite escura
e me faz viver...
ACREDITAR...

Aquela que amo
Disse-me
Que precisa de mim.
Por isso tenho tentado
Cuidar de mim
Olho sempre com cuidado
o meu caminho
com receio de ser morto
Por uma só gota de chuva...

Bosque de folhas negras
Noite
angústia na alma
sempre
sempre noite...
Nem importa que o ardor do sol entre pelas arestas da íris,
é noite, é noite... Sonata ao luar tange sempre,
sempre as folhas negras farfalhantes, sempre, sempre
o vestido negro que vestes nos meus sonhos
rasgado ao ombro,
o sangue coagulado vertendo no seio esquerdo,
sempre, o sangue em conta-gotas de uma viscosidade sublime,
o sangue do amor é assim, sublime,
não permeia o ar como um sinalizador de abutres.
O sangue vazado do coração rasgado de amor
é uma luz de eras sem conta, passeia em espirais
como um silêncio que rasga,
o primeiro dia da criação até hoje é só este átimo
da gota que pulsa e valsa e expele na pele do seio esquerdo,
arfante, na negra seda - a cor da morada do abismo.
Que a noite te seja leve!
Abraços!
Lucas