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Quatro horas . O gavião marrom fechou suas asas
e pousou vibrando o ar.
Num vôo baixo e rápido me indicou a direção.
Leste. Saí do carro e o segui em passadas hipnóticas
até uma espécie de ninho entre galhos secos
e folhas verdes de uma palmeira logo acima.
Ele , à mostra, deixou que eu, num misto de surpresa,
incredulidade e comoção ,
o observasse enquanto "trabalhava"
calmamente com o bico .
Um aceno em sentido oposto desviou
minha atenção e não mais o vi .
De repente, enquanto as nuvens no céu tingiam-se de cinza,
me falou pelo Vento - prenúncio de tempestade,
chamado.

Retornei ao meu caminho,
agora com o coração em batidas descompassadas
na cadência de grossos pingos
que manchavam o chão . Chuva intensa , ventania .
Nos olhos e na alma, inquietação.
Sussurro ancestral na pele.
O céu em prantos pedia uma oferenda
enquanto derramava bençãos .
Purificação...

Em casa , uma hora depois,
nu em penas, pés descalços e asas nos braços ,
misturando-me às poças refletidas,
entreguei-me num vôo cego à Água da Vida
entre as folhagens e galhos salpicados de tarde ,
envolvido pelo aroma de hortelã
e pelo toque de sementes da árvore da felicidade.
Então , após o "batismo", de joelhos,
com as mãos postas no peito e com o corpo ungido
e vestido somente de pura chuva
e agora abençoada pela Mãe Terra, agradeci .
Assim me faço e me trasformo todos os dias,
consciente de que Deus
me envia os seus sinais para que eu mantenha
sempre os olhos atentos ao amor,
a pureza , a simplicidade e a aceitação de ser
e o que exatamente Deus quiser que eu seja...
Porque o resto está apenas de passagem
como as horas, como o feitiço do tempo,
como as águas mansas cortam as rochas,
como os voos de todas as almas que se purificam...
e preenchem o vasto céu
de paz, de azuis lilázes e transparencias... (lucas)
Escrito por lucas às 13h38
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