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Quando o primeiro homem desceu aos vales e aos montes da Terra,
sentiu que a miséria lhe entravava todos os passos.
Entristecido, ante a contemplação de pântanos e desertos, voltou,
receoso, ao Trono do Senhor e rogou em voz súplice: - Pai misericordioso, compadece-te de mim!
A indigência persegue-me, socorre a minha extrema- pobreza!... E o Todo-Bondoso, prometendo-lhe proteção e carinho,
recomendou-lhe o trabalho das mãos. O homem tornou à gleba escura e triste e agiu, corajosamente. Improvisando utensílios rústicos, distribuiu as águas, drenou
os charcos, selecionou as plantas frutíferas e conseguiu edificar
o primeiro ninho doméstico. Instalado, porém, na casa simples, reconheceu que a ignorância
lhe ensombrava a Imaginação.
Amedrontado com as inibições espirituais que o sufocavam,
regressou ao Céu, Implorando: - Senhor, Senhor, minha cabeça jaz em trevas...
Auxilia-me!
Dá-me claridade ao entendimento!... E o Todo-Sábio, reafirmando-lhe o seu amor infinito, aconselhou-lhe
o trabalho do pensamento. Atendendo a indicação, o homem passou a observar com
redobrada paciência os fenômenos que o cercavam, adquirindo
preciosas lições da Natureza e criando, com o esforço próprio, os
primeiros livros de pedra. Ilhado, todavia, em tarefas e estudos, experimentou o anseio de
exteriorizar-se e voar...
A solidão amargava-lhe o espírito.
Aspirava à comunhão com os outros
seres, anelava penetrar os segredos do firmamento.
Depois de muitas lágrimas, retomou ao Paraíso e pediu em pranto: - Pai, estou sozinho...
Ampara-me!
Ajuda-me a fugir do cárcere de mim mesmo!... O Todo-Poderoso, afagando-lhe a fronte, abençoou -lhe a presença
e receitou-lhe o trabalho dos sentidos. O homem, surpreso, mobilizou os recursos dos olhos e dos ouvidos
e, contemplando as estrelas luzentes, mirando as flores, auscultando
a beleza das pedras e dos metais e ouvindo as vozes das
fontes e dos ventos, descobriu a arte, em cuja companhia pôde
afastar-se do mundo, em espírito, na direção das Esferas Superiores. Rodeado de enorme descendência, passou a ser visitado pelo
cortejo de variadas enfermidades.
Espantado com a ruína física dos filhos e dos netos, recorreu, aflito,
ao Senhor, suplicando, lacrimoso: - Pai Amado, as moléstias devastam-me a casa...
Que será de mim?
Assiste-nos com a tua compaixão!... O Todo-Amoroso sorriu, compassivo, reiterou-lhe a promessa
de auxílio e recomendou-lhe o trabalho do raciocínio. Examinando detidamente as plantas e os minerais, o homem
conseguiu a formação de numerosos remédios para combater
as doenças que o vergastavam. Mais tarde, com o aprimoramento da paisagem e com a prosperidade
dos seus bens, foi assaltado por diversas tentações.
A inveja, o orgulho e a vaidade sopravam-lhe aos ouvidos os
mais estranhos proj etos. Aflito, procurou o Trono Divino e solicitou, amargurado: - Senhor, gênios perversos me atormentam a vida!... Fortalece-me contra a loucura!... O Todo-Generoso acariciou-lhe a cabeça trêmula e indicou-lhe mais
trabalho para a atenção. O homem tornou à Terra imensa e procurou fugir de si mesmo,
através da atividade incessante, instituindo novas colônias de
serviço para a multiplicação das tarefas gerais, garantindo,
com isso, a sua harmonia mental. Dias rolaram sobre dias...
Depois de muitos anos, já encanecido, notou que os seus inúmeros
descendentes surgiam irritados e desarmônicos, a propósito de
inutilidades e ilusões.
A discórdia armava entre eles perigosos abismos... Torturado, o infeliz demandou à Casa do Senhor, mas reparou
com surpresa que o Paraíso elevara-se além das estrelas. . . Triste e cansado, orou em lágrimas ardentes. O Todo-Compassivo não veio pessoalmente ouvir-lhe a súplica,
mas enviou-lhe um mensageiro, aureolado de bondade e de luz,
que lhe falou carinhosamente: - Volta ao mundo, em nome do Senhor, e trabalha constantemente.
Se teus filhos e netos se desentendem uns com os outros, dá
trabalho ao teu coração, amando, perdoando, servindo e
ensinando sempre... E, porque o homem indagasse sobre a ocasião sublime em que
lhe caberia repousar na companhia do Eterno Pai, o emissário
respondeu, delicado e solícito: - Vai e constrói. Segue e atende ao progresso.
Avança, marcando atua romagem com os sinais
imperecíveis das boas obras!...
O trabalho, entre as margens do amor e da reta consciência, é a
estrada de luz que te reconduzirá ao Paraíso, a fim de que a Terra
se transforme no divino espelho da Glória de Deus.
(Texto do Irmão X)
Escrito por lucas às 15h43
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