Ao sul do teu umbigo
Há qualquer coisa de astronomia, de quiromancia e adivinhação em olhar quem se deseja. Mapear os sinais do ar, os olhos confessos de homem, os arabescos de braços e pernas, os cabelos em alvoroço, o resplandecer de uma mulher que se sabe cobiçada, a decifração de uma palavra que salta, de repente, além do contexto original do dez mandamentos e que é aceita, pelo outro.
E há o risco de vencer o proibido, o sagrado espaço em que habitava, antes, a longa amizade, as danças -coreografias de acasalamento que ainda não se sabiam-, risos de pequenos eventos em comum, ao acaso, que se encandeiam, feito um canto gregoriano, queima de fogos de artifício a preparar a armadilha do súbito encantamento, o feitiço, que muda a porosidade do corpo, tornando-os permeáveis. Brincar de ciúmes, com a malícia de inocentes, e antecipar as bocas como um adorno de velas, um narrar de segredos inesquecíveis e o beijo, escritura de concessão, sismo, que não poderá ser dado a mais ninguém assim, como um rito de aplacar todas os anseios.
É preciso saber o exato instante em que se lança as naus da fome, a conquistar o vasto, o mar alheio, sob o perigo de perder-se para sempre, a passagem entre a distância e o enlaçar-se perdidamente, numa música, os braços rodeando o pescoço, feito rodilha, um ardil de noticiar o que poderá vir, mais tarde, quando a lua fechar os teatros e os restaurantes e o vinho percorrer, feito frêmito, as últimas recusas.
Ah, aquele instante único em que sabem, com todas as certezas, que se darão, enfim, exaustos de se protelarem. À noite, cúmplice, ele sentirá os limites dos corpos se provocando, enquanto ela, feito as margens do Nilo, se fertiliza, em anseios de o ter, de não ser mais um segredo para ele. E, depois, desvendados, refazer o milagre nos dias seguintes, mais profundos e inteiros, livres dos pudores, grávidos de confissões e esperanças, entregues a própria sina, na insaciedade de querer mais. Nas lágrimas dela, que lavam o rosto, das culpas, feito água benta, de quem se martiriza como uma dádiva de amor, para o outro.
Foi assim, como quem tateia meridianos desconhecidos, que ele a viu, possível, a mais inacessível das cobiças, as defesas fragilizadas, e ela, deixou que migrasse por sua pele e princípios a vontade, até então, não permitida, como uma alegoria de sedução. E, desde então, a imagem de um, oscilou, feito sereno e senha, sobre o sono do outro: a pele dela molhada ao sol, a libido dele feito provocação, Arca de Noé , a recolher todos os desejos.
Foi em cartas de fogo, lidas por ela, em avidez de descobertas e cio, como quem trapaceia com o destino e, rendida, desfaz os aceiros das dúvidas e se deita nas promessas que o telefone anuncia. Ele lhe contou que Zeus, querendo medir com exatidão o centro do mundo, fez com que duas águias fossem soltas de lugares opostos da terra. Quando o vôo das duas se cruzou, ali, bem embaixo, o todo-poderoso determinou ser o local ¿ uma pedra situada nas cercanias do monte Parnaso - do ônfalos, o umbigo do mundo.
E, quando, enfim, se encontraram, ao dançarem, poro com poro, ele disse que só dela, como Zeus, na lenda, poderia se contar para o mundo, perdido para sempre no labirinto de espirais, que se anunciava, feito porto, paixão dos loucos, ponto cardeal, irrepetível, onde, enfim, encontraria sua direção.
- E onde fica o rumo que, teu hoje, te faria sempre voltar, perguntou, sem domínios, o vestido se dilacerando.
E, ele, implacável..
-Ao sul do teu umbigo...
Abraços!
LUCAS